sábado, 29 de dezembro de 2012

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES



Caminhando e cantando e seguindo a canção, assim começa a bela canção de Geraldo Vandré, símbolo da resistencia à ditadura dos anos 60/70.
Comecei esse texto com a letra desta música tão forte e tão atual, para refletirmos sobre o ano que passou e o que virá.

Nossa vida é um retrato fiel de nossas escolhas. Eu caminho cantando e confiando. Com o olhar atento ao bom da vida, mesmo quanto ele parece ter se perdido na rotina, nos problemas, na corrupção, na violência, na injustiça. Eu caminho e confio!

E ele continua dizendo na música, que somos todos iguais. Sim, iguais! Acredito que somos iguais e vivo isso, luto por isso. Essa é uma das minhas escolhas. Meu trabalho, minhas crianças, que me ensinam a olhar o mundo com mais suavidade.  E eu aprendo com elas a sorrir e a ser feliz, mesmo quando a maré está adversa.

Esse ano foi um bom ano, com boas escolhas e boa colheita. Mas não foi fácil, acho que nunca é. Um anos, doze meses, 365 dias é muito tempo para não termos nenhum aborrecimento. Tive alguns, é claro, mas escolhi o sorriso. Escolhi tentar me manter leve na medida do possível. E olhar as flores, sentir a relva, contemplar o belo. 

Vocês já sabem que gosto de usar datas comemorativas para refletir, mas nenhuma delas me toca tanto quanto o Ano Novo. Novo! Fresco! Cheio de possibilidades de mudança, crescimento, aprendizagem. Limpo armários em casa e no meu emocional. Observo, não julgo, perdoo. Pelo menos tento e sinto que melhoro um pouco a cada ano. É um processo lento, mas muito bonito. Mais belo que o lugar da chegada é o caminho. Aprecie!

E sigo, como dizia Cora Coralina, derrubando minhas pedras e plantando flores.

Escolhendo o amor, acima de tudo. O amor que traz em si o perdão, a compaixão, a caridade, enfim, tudo o que de melhor há no mundo.


Esse é meu desejo, que cada um de nós olhe 2013 como um ano de enormes possibilidades para a prática do amor em todas as suas nuances. Amar a si mesmo, amar sua família, seu amigo, seu vizinho, os animais, as plantas, todos como irmão e companheiros de caminhada. Se for assim, cada um fazendo um pouquinho, tenho certeza que constuiremos um ano inesquecível, o melhor do resto de nossas vidas!
Saúde! Feliz Ano Novo!
Sejam felizes. Escolham a felicidade!
Abraços
Dra Alessandra

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Minhocão ou Elevado Costa e Silva?



Eu já comentei aqui que gosto muito de uma revista chamada Vida Simples. Tenho desde o primeiro exemplar, mas de um tempo pra cá não estava mais curtindo tanto as matérias e a forma como ela está sendo conduzida. Então parei de comprar e resgatei os quase sete anos que tenho de revista e estou relendo. Revisitar conhecimentos alguns anos depois é bastante interessante.

Mas não é disso que vou falar hoje. Relendo uma dessas revistas de 2008, achei um texto da colunista (que escreve desde o começo da revista) Soninha Francine – sim, a candidata a prefeitura de SP – em que ela faz uma bela analogia entre o Minhocão e toda a alegria do brasileiro e sua irreverência em apelidar tudo, as cores do caminho, os pássaros que insistem em cantar em meio ao concreto e o Elevado Costa e Silva, a mesma construção, mas que nos remete e um Marechal que assumiu a presidência de nosso país em 67 e promulgou o terrível AI-5, que nos privou da nossa liberdade e da nossa arte.

O mesmo lugar com duas denominações tão antagônicas, duas leituras tão diferentes. Ela pontua que há dias em que ela passa pelo Minhocão, aproveitando toda sua beleza e sua peculiaridade, em outros passa pelo Elevado, cinza, com rachaduras, infiltrações, pobreza e sujeira ao redor. Feio, triste.

O lugar é o mesmo, o que muda é o olhar!

Eu li isso, não por acaso, num dia em que atendi a uma mãe que fez tantas, tantas queixas do filho (de 2 anos), que acabei não aguentando e perguntando se ela não achava ruim falar todas aquelas ciosas de uma criança tão jovem. Entendo que ela esta cansada e até irritada com o menino, que realmente dá muito trabalho, mas também sei que parte da irritação dele vem de toda essa projeção de coisas negativas que ela faz.

Como mostrar ao outro que o Elevado e o Minhocão são o mesmo lugar? E que ambos estão em nossas vidas, só cabendo a nós escolher para qual vamos olhar?

Difícil... Mas a parte legal de trabalhar com o outro é crer nas pessoas e não desistir, nunca.

E você? O que você vê? Qual é a sua escolha?

Um abraço
Dra Alessandra

GASTROSTOMIA: UM PROBLEMA OU UMA SOLUÇÃO?



Esse é um tema recorrente na minha prática clínica e embora, não seja específica da neurologia, a indicação da gastrostomia é um momento delicado e que gera muitas dúvidas nos familiares.

A gastrostomia é uma abertura feita cirurgicamente no estômago para o meio externo, que pode ser realizada por via endoscópica ou através de cirurgia a céu aberto, com finalidade de facilitar a alimentação enteral do paciente e administração de líquidos, quando a mesma está impossibilitada por via oral. 

Sua principal função, além de prover alimentação e ganho calórico adequado é evitar as consequências dos distúrbios da deglutição, em especial, a broncoaspiração. A broncoaspiração ocorre quando o alimento ao invés de descer pela via do sistema digestório, cai no sistema respiratório e vai para o pulmão.

Isso ocorre em várias situações neurológicas crônicas e pode chegar a 90% em casos de paralisia cerebral grave e 100% em doenças neuromusculares progressivas.

Alguns sinais de alerta para a aspiração são: escape oral de alimentos e saliva; dificuldade na mastigação e deglutição; regurgitação; pigarro após alimentação; engasgos e sensação de sufocação; tosse crônica e hipersecreção brônquica e especialmente, perda ou ausência de ganho adequado de peso.

A indicação do procedimento se dá após criteriosa avaliação clínica e a realização de exames complementares, tais como o videodeglutograma. Após a realização do procedimento deve haver reabilitação fonoaudiológica.

Importante salientar que em alguns casos, a gastrostomia não é definitiva. Havendo recuperação nutricional e o adequado treino de reabilitação e ganhos funcionais, podemos reverter o procedimento.

Finalizando, embora a gastrostomia seja um procedimento que suscite medo e dúvidas, é um procedimento seguro, que melhora sobremaneira a vida da criança e consequentemente das famílias. Proporciona melhor manejo clínico, melhores trocas posturais, enfim, um ganho na qualidade de vida da criança.

Um abraço
Dra Alessandra

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

NESTE DIA DO MÉDICO, TEMOS MUITO A COMEMORAR! SERÁ?



Fiquei olhando meio entristecida para o jornal e me perguntando se realmente temos motivos para comemorar. Num país onde os planos de saúde pagam em média 20 ou 30 reais uma consulta de um especialista que levou no mínimo 8 anos para se formar, entre graduação e especialização, onde o serviço público paga pela hora trabalhada um valor vergonhoso. Onde as pessoas morrem na fila esperando um exame ou uma avaliação especializada. Desculpe, mas vou discordar do meu conselho, pois acho que temos muito pouco a comemorar.

Eu adoro minha profissão. Gosto mesmo. De verdade. Sem demagogias. Gosto de cuidar das pessoas, dessa troca linda que é conhecer o outro, sua vida, suas histórias. Divido dores, multiplico possibilidades, somo conhecimento. Ensino e aprendo na mesma proporção. 

Nada me emociona mais que uma criança epiléptica com suas crises controladas e se desenvolvendo bem, ou um paciente encefalopata que adquiriu a marcha, não importa a idade. Um deficiente incluído com sucesso no mercado de trabalho, independente, produtivo.

Gosto de trabalhar em equipe. Trocar com outros profissionais. Esses ainda mais mal remunerados que nós médicos. E comecei falando na questão financeira, mas isso está longe de ser nosso único problema. Carência de recursos, condições ruins de trabalho, falta de equipe, falta de recursos simples, como uma pia para lavar as mãos entre os atendimentos... E por aí vai.

Sei que sou tão realizada na minha profissão porque fiz escolhas na minha carreira que me afastaram dessa realidade mais cruel, mas nem por isso esqueço como foram os primeiros anos de trabalho e como é a vida de vários colegas que se estressam perdendo vidas à espera de uma vaga em UTI que nunca vem.

Muito se evoluiu na medicina e muita coisa conquistamos, é verdade, mas essas conquistas ainda estão longe da esmagadora maioria dos pacientes. E isso entristece qualquer médico. Saber que poderíamos fazer mais pelo nosso paciente, mas não temos os recursos necessários é uma dura realidade.

Embora pareça pessimista, gosto de utilizar essas datas comemorativas para refletir sobre a situação real. E a realidade tem menos glamour que a comemoração.

Entretanto sou uma grande otimista. Acho que ainda podemos fazer boas escolhas e lutar pela dignidade de uma profissão tão linda, embora desgastada. Uma profissão de amor, de dedicação, de entrega. Não curo muito de meus pacientes, mas tenho certeza que faço tudo que está ao meu alcance para melhorar a qualidade de vida deles, luto pela dignidade e pela inserção das minhas crianças nas suas famílias, na escola, na vida. E cada sorriso, cada vitória é de todos nós e supera toda a dificuldade que enfrentamos diariamente. Só aumenta a motivação para lutar. Para mudar essa realidade.

Finalizando, acho que temos pouco a comemorar neste dia e muito trabalho a fazer. Um trabalho lindo, mágico, especial. E as felicitações que eu receber amanhã, não serão somente minhas, mas também de todas as pessoas que confiam a mim a vida do seu filho. Essas pessoas são parte da minha vida hoje e sempre. Juntos nós fazemos de situações dolorosas, um caminho de lutas e conquistas.

Feliz dia do médico! E dos pacientes! Não somente hoje, mas todos os dias.

Um abraço
Dra Alessandra

domingo, 30 de setembro de 2012

E AS FÉRIAS ACABARAM!

 
Há algum tempo aprendi a tirar férias. Sair, desligar, descansar. Sair de todos os empregos ao mesmo tempo, desligar o celular, Enfim, me dar tempo!
 
Às vezes fico em casa curtindo meu cantinho e minhas plantinhas, outras, viajo. Desta vez, viajei. Passei 20 dias viajando. Um momento lindo de descanso e aprendizado. Conheci lugares mágicos, me desliguei de todas as demandas do meu cotidiano. Realmente um tempo só meu.
 
E a viagem foi intensa. Descanso mental, mas quase uma aula de aeróbica... Andei, andei, andei. E aprendi, senti, compreendi.
 
Conhecer novos lugares, com o olhar atento e o coração aberto nos transforma, acrescenta. Foi uma viagem sensacional. Fui a Israel, numa peregrinação pelos caminhos de Cristo na terra Santa e depois Assis e Fátima, na Itália e Portugal, respectivamente. Lugares lindos, uma beleza para ser apreciada com os olhos e com o coração.
 
Mas Israel superou minhas expectativas. Longe de defender qualquer posição religiosa, entender os caminhos deste grande homem foi revelador. Independente da forma como o entendemos, desde filho de Deus até um grande filósofo, ele revolucionou o mundo, a ponto de dividirmos a existência humana, na maior parte do globo, em antes e depois de sua estada terrena.
 
Por isso foi intenso. Lugares com dois mil anos de história. Pedras milenares, construções que sobreviveram a guerras e terremotos, história viva. Energia pura.
 
Mas, a grande lição disso tudo é não passar em branco por essas vivencias. É que todo esse material humano e histórico que vi, vivi e senti, faça parte da minha vida, me modifique e que eu possa tocar outros corações com essa experiência.
 
A grande aprendizagem de qualquer viagem é voltarmos melhores do que fomos de alguma forma. E para isso, a viagem pode ser para o outro lado do mundo, ou para o outro lado da cidade. Ou pode nem acontecer. A diferença é nosso coração estar aberto às boas experiências e aos bons ensinamentos. Assim, as férias acabam, mas continuam eternamente em nossas vidas.
 
Boa semana! E aproveitem cada oportunidade da vida.
Um abraço.
Dra Alessandra 
Obs: foto - vista de Jerusalém

Ansiedade na infância: por que nossas crianças sofrem com o amanhã?

Eu acho que a infância é, sem dúvidas, a melhor fase da vida. Onde tudo é lúdico e onde a vida ainda é mais diversão do que obrigação....