Eu escuto todos os dias muitas histórias, dos mais variados tipos e com os desfechos mais heterogêneos possíveis. Histórias de superação, de abandono, de negligência, de abuso. Algumas histórias tristes e outras felizes.
E comecei o ano ouvindo uma surpreendente história de amor e generosidade, snetimantos tão em falta nos dias de hoje, tão silenciados pelo egoísmo, pela inveja e pela violência.
A mãe de um paciente veio me procurar para contar que seu filho tinha falecido. Vocês já sabem a minha opinião sobre morrer na infância. Deveria ser proibido! Criança tem que viver, que florescer. A morte não deveria serpermitida nessa faixa etárias. Mas sabemos bem, que ela não poupa ninguém.
Um menino com uma condição neurológica não muito grave, que aos 9 anos tinha um atraso motor e cognitivo leves. Andava, corria, estudava e já estava alfabetizado.
Apresentou uma descompensação do seu quadro neurológico e naquela velha combinação que tão bem conhecemos no Brasil de escassez de recursos associados a negligência de um sistema de saúde à beira da falência, a criança evoluiu para morte encefálica.
E foi uma comovida mãe que me contou que a família optou por doar os órgãos desse menino, fazendo dessa grancde tragédia a salvação de várias crianças. Rins, coração, pâncreas, córneas. Um milagre, uma explosão de vida, vindo de um momento trágico.
Ela me deixou os medicamentos que ele usava, pois outras crianças podem estar precisando e uma foto dele sorridente e bonito como ela faz questão que ele seja lembrado, foto essa que foi usada numa camiseta por todos os colegas de escola durante seu enterro.
Quando ela saiu do meu consultório eu estava emocionada e admirada com tamanha generosidade, com tamanha luz e força interior. Da dor, fez-se vida. Do improvável, amor. Um ato para poucos. Fico honrada que tenhamos dividido isso.
Dias assim, embora tristes me fazem achar que ainda há um caminho para a humanidade.
Sejam felizes. E generosos!
Um abraço
Dra Alessandra
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sábado, 19 de janeiro de 2013
sábado, 29 de dezembro de 2012
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES
Caminhando e cantando e seguindo a canção, assim começa a bela canção de Geraldo Vandré, símbolo da resistencia à ditadura dos anos 60/70.
Comecei esse texto com a letra desta música tão forte e tão atual, para refletirmos sobre o ano que passou e o que virá.
Nossa vida é um retrato fiel de nossas escolhas. Eu caminho cantando e confiando. Com o olhar atento ao bom da vida, mesmo quanto ele parece ter se perdido na rotina, nos problemas, na corrupção, na violência, na injustiça. Eu caminho e confio!
E ele continua dizendo na música, que somos todos iguais. Sim, iguais! Acredito que somos iguais e vivo isso, luto por isso. Essa é uma das minhas escolhas. Meu trabalho, minhas crianças, que me ensinam a olhar o mundo com mais suavidade. E eu aprendo com elas a sorrir e a ser feliz, mesmo quando a maré está adversa.
Esse ano foi um bom ano, com boas escolhas e boa colheita. Mas não foi fácil, acho que nunca é. Um anos, doze meses, 365 dias é muito tempo para não termos nenhum aborrecimento. Tive alguns, é claro, mas escolhi o sorriso. Escolhi tentar me manter leve na medida do possível. E olhar as flores, sentir a relva, contemplar o belo.
Vocês já sabem que gosto de usar datas comemorativas para refletir, mas nenhuma delas me toca tanto quanto o Ano Novo. Novo! Fresco! Cheio de possibilidades de mudança, crescimento, aprendizagem. Limpo armários em casa e no meu emocional. Observo, não julgo, perdoo. Pelo menos tento e sinto que melhoro um pouco a cada ano. É um processo lento, mas muito bonito. Mais belo que o lugar da chegada é o caminho. Aprecie!
E sigo, como dizia Cora Coralina, derrubando minhas pedras e plantando flores.
Escolhendo o amor, acima de tudo. O amor que traz em si o perdão, a compaixão, a caridade, enfim, tudo o que de melhor há no mundo.
Esse é meu desejo, que cada um de nós olhe 2013 como um ano de enormes possibilidades para a prática do amor em todas as suas nuances. Amar a si mesmo, amar sua família, seu amigo, seu vizinho, os animais, as plantas, todos como irmão e companheiros de caminhada. Se for assim, cada um fazendo um pouquinho, tenho certeza que constuiremos um ano inesquecível, o melhor do resto de nossas vidas!
Saúde! Feliz Ano Novo!
Sejam felizes. Escolham a felicidade!
Abraços
Dra Alessandra
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Minhocão ou Elevado Costa e Silva?
Eu já comentei aqui que gosto muito de uma revista chamada
Vida Simples. Tenho desde o primeiro exemplar, mas de um tempo pra cá não
estava mais curtindo tanto as matérias e a forma como ela está sendo conduzida.
Então parei de comprar e resgatei os quase sete anos que tenho de revista e
estou relendo. Revisitar conhecimentos alguns anos depois é bastante
interessante.
Mas não é disso que vou falar hoje. Relendo uma dessas
revistas de 2008, achei um texto da colunista (que escreve desde o começo da
revista) Soninha Francine – sim, a candidata a prefeitura de SP – em que ela
faz uma bela analogia entre o Minhocão e toda a alegria do brasileiro e sua
irreverência em apelidar tudo, as cores do caminho, os pássaros que insistem em
cantar em meio ao concreto e o Elevado Costa e Silva, a mesma construção, mas
que nos remete e um Marechal que assumiu a presidência de nosso país em 67 e
promulgou o terrível AI-5, que nos privou da nossa liberdade e da nossa arte.
O mesmo lugar com duas denominações tão antagônicas, duas
leituras tão diferentes. Ela pontua que há dias em que ela passa pelo Minhocão,
aproveitando toda sua beleza e sua peculiaridade, em outros passa pelo Elevado,
cinza, com rachaduras, infiltrações, pobreza e sujeira ao redor. Feio, triste.
O lugar é o mesmo, o que muda é o olhar!
Eu li isso, não por acaso, num dia em que atendi a uma mãe
que fez tantas, tantas queixas do filho (de 2 anos), que acabei não aguentando
e perguntando se ela não achava ruim falar todas aquelas ciosas de uma criança tão
jovem. Entendo que ela esta cansada e até irritada com o menino, que realmente
dá muito trabalho, mas também sei que parte da irritação dele vem de toda essa
projeção de coisas negativas que ela faz.
Como mostrar ao outro que o Elevado e o Minhocão são o mesmo
lugar? E que ambos estão em nossas vidas, só cabendo a nós escolher para qual
vamos olhar?
Difícil... Mas a parte legal de trabalhar com o outro é crer
nas pessoas e não desistir, nunca.
E você? O que você vê? Qual é a sua escolha?
Um abraço
Dra Alessandra
GASTROSTOMIA: UM PROBLEMA OU UMA SOLUÇÃO?
Esse é um tema recorrente na minha prática
clínica e embora, não seja específica da neurologia, a indicação da
gastrostomia é um momento delicado e que gera muitas dúvidas nos familiares.
A gastrostomia
é uma abertura feita cirurgicamente no estômago para o meio externo, que
pode ser realizada por via endoscópica ou através de cirurgia a céu aberto, com
finalidade de facilitar a alimentação enteral do paciente e administração de líquidos,
quando a mesma está impossibilitada por via oral.
Sua principal função, além de prover alimentação e ganho
calórico adequado é evitar as consequências dos distúrbios da deglutição, em
especial, a broncoaspiração. A broncoaspiração ocorre quando o alimento ao invés
de descer pela via do sistema digestório, cai no sistema respiratório e vai
para o pulmão.
Isso ocorre em várias situações neurológicas crônicas e pode
chegar a 90% em casos de paralisia cerebral grave e 100% em doenças neuromusculares
progressivas.
Alguns sinais de alerta para a aspiração são: escape oral de
alimentos e saliva; dificuldade na mastigação e deglutição; regurgitação;
pigarro após alimentação; engasgos e sensação de sufocação; tosse crônica e
hipersecreção brônquica e especialmente, perda ou ausência de ganho adequado de
peso.
A indicação do procedimento se dá após criteriosa avaliação
clínica e a realização de exames complementares, tais como o videodeglutograma.
Após a realização do procedimento deve haver reabilitação fonoaudiológica.
Importante salientar que em alguns casos, a gastrostomia não
é definitiva. Havendo recuperação nutricional e o adequado treino de reabilitação
e ganhos funcionais, podemos reverter o procedimento.
Finalizando, embora a gastrostomia seja um procedimento que
suscite medo e dúvidas, é um procedimento seguro, que melhora sobremaneira a vida
da criança e consequentemente das famílias. Proporciona melhor manejo clínico,
melhores trocas posturais, enfim, um ganho na qualidade de vida da criança.
Um abraço
Dra Alessandra
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
NESTE DIA DO MÉDICO, TEMOS MUITO A COMEMORAR! SERÁ?
Fiquei olhando meio
entristecida para o jornal e me perguntando se realmente temos motivos para
comemorar. Num país onde os planos de saúde pagam em média 20 ou 30 reais uma
consulta de um especialista que levou no mínimo 8 anos para se formar, entre
graduação e especialização, onde o serviço público paga pela hora trabalhada um
valor vergonhoso. Onde as pessoas morrem na fila esperando um exame ou uma
avaliação especializada. Desculpe, mas vou discordar do meu conselho, pois acho
que temos muito pouco a comemorar.
Eu adoro minha profissão.
Gosto mesmo. De verdade. Sem demagogias. Gosto de cuidar das pessoas, dessa
troca linda que é conhecer o outro, sua vida, suas histórias. Divido dores, multiplico
possibilidades, somo conhecimento. Ensino e aprendo na mesma proporção.
Nada me
emociona mais que uma criança epiléptica com suas crises controladas e se
desenvolvendo bem, ou um paciente encefalopata que adquiriu a marcha, não
importa a idade. Um deficiente incluído com sucesso no mercado de trabalho,
independente, produtivo.
Gosto de trabalhar em
equipe. Trocar com outros profissionais. Esses ainda mais mal remunerados que
nós médicos. E comecei falando na questão financeira, mas isso está longe de
ser nosso único problema. Carência de recursos, condições ruins de trabalho,
falta de equipe, falta de recursos simples, como uma pia para lavar as mãos
entre os atendimentos... E por aí vai.
Sei que sou tão realizada
na minha profissão porque fiz escolhas na minha carreira que me afastaram dessa
realidade mais cruel, mas nem por isso esqueço como foram os primeiros anos de
trabalho e como é a vida de vários colegas que se estressam perdendo vidas à
espera de uma vaga em UTI que nunca vem.
Muito se evoluiu na
medicina e muita coisa conquistamos, é verdade, mas essas conquistas ainda
estão longe da esmagadora maioria dos pacientes. E isso entristece qualquer
médico. Saber que poderíamos fazer mais pelo nosso paciente, mas não temos os
recursos necessários é uma dura realidade.
Embora pareça pessimista,
gosto de utilizar essas datas comemorativas para refletir sobre a situação
real. E a realidade tem menos glamour que a comemoração.
Entretanto sou uma grande
otimista. Acho que ainda podemos fazer boas escolhas e lutar pela dignidade de
uma profissão tão linda, embora desgastada. Uma profissão de amor, de
dedicação, de entrega. Não curo muito de meus pacientes, mas tenho certeza que
faço tudo que está ao meu alcance para melhorar a qualidade de vida deles, luto
pela dignidade e pela inserção das minhas crianças nas suas famílias, na
escola, na vida. E cada sorriso, cada vitória é de todos nós e supera toda a
dificuldade que enfrentamos diariamente. Só aumenta a motivação para lutar.
Para mudar essa realidade.
Finalizando, acho que
temos pouco a comemorar neste dia e muito trabalho a fazer. Um trabalho lindo,
mágico, especial. E as felicitações que eu receber amanhã, não serão somente minhas,
mas também de todas as pessoas que confiam a mim a vida do seu filho. Essas
pessoas são parte da minha vida hoje e sempre. Juntos nós fazemos de situações
dolorosas, um caminho de lutas e conquistas.
Feliz dia do médico! E
dos pacientes! Não somente hoje, mas todos os dias.
Um abraço
Dra Alessandra
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