quinta-feira, 28 de abril de 2011

UM NOVO DIA

Essa semana faleceu um colega de profissão. Não éramos muito chegados, mas trabalhamos na mesma sala por 4 anos, ou seja, era alguém relativamente próximo. Um cara jovem (uns 5 ou 6 anos mais velho que eu... MUITO JOVEM), praticava esportes, com um filho adolescente. Infartou. Fulminante! Já chegou morto ao hospital.

Essas coisas assustam. E muito. A brevidade da vida, a proximidade de fatos inusitados e tristes nos faz pensar em nossa própria vida. Retomo então um assunto que abordei um tempo atrás, que é o que fazemos por nós? Como vivemos nossa vida?

Hoje estava lendo o post de uma amiga, a Tatiane, que escreve no blog Mãe, Mulher, Médica (vejam no link) em que ela falava desta correria desenfreada em que não achamos tempo para nada, tentamos bancar as heroínas (ou heróis) que trabalham muito, estudam muito, entendem de tudo e consegue fazer tudo. A pergunta é: qual o preço disso? Enxaqueca, ansiedade, depressão, irritabilidade, noites mal dormidas, vidas mal vividas!

Por isso, volto a insistir no nosso tempo. Fazer um tempo para nós mesmos. Claro, exige renúncia, desapego, mas é fundamental.

Esse ano, na minha listinha de ano novo, estava ter tempo para mim. Reduzi minha carga de trabalho e abri um tempo meu, onde me proibi de colocar qualquer atividade que não seja contemplar meu jardim e regar minhas flores. Uma tarde inteirinha! Quem me conhece sabe o quanto isso é difícil. Foi uma luta, entre culpas e renúncias, mas sigo ferrenhamente disciplinada em manter esse espaço para mim.

Outra resolução que venho mantendo é não me aborrecer com coisas que não valham a pena. Fiz uma lista de coisas que valem a pena. O resto.... eu deixo passar.

E assim vamos vivendo, aprendendo, trocando experiência, correndo atrás desse fantástico equilíbrio. Tão difícil, tão possível!! O importante é viver com consciência. Escolhas conscientes, estar presente em nossas próprias vidas. Erros ocorrem e fazem parte do crescimento, mas a caminhada tem que ser alegre, porque não sabemos onde é o fim da estrada.


Sejam felizes.

Um abraço

Dra Alessandra

quinta-feira, 31 de março de 2011

ACUPUNTURA EM CRIANÇAS

Embora seja uma medicina muito antiga, as práticas chinesas só alcançaram a faixa etária pediátrica na Dinastia Song (960-1279) e os textos pediátricos proliferaram após 1949, pois a saúde das crianças sofreu muito pelos problemas sociais e econômicos da china. Como em toda a Medicina Tradicional Chinesa (MTC), os cuidados pediátricos têm um caráter preventivo e integram vários aspectos: Físico e mental: ausência de doença. Ambiental: ajustamento ao ambiente. Pessoal e emocional: auto-realização pessoal e afetiva. Sócio-ecológico: comprometimento com a igualdade social e com a preservação da Natureza. O corpo da criança na visão da MTC apresenta uma constituição mole, Qi e Xuê insuficientes, tendões e vasos insuficientemente formados, espírito não desenvolvido e baixa resistência corporal. Ou seja: CUIDADOS INADEQUADOS PODEM CAUSAR DOENÇA! Algumas peculiaridades da criança também são observadas, lembrando sempre que os órgãos são vistos de acordo com sua função energética e não sua função fisiológica ocidental: O Baço e o Yin da criança são freqüentemente insuficientes; os órgãos são frágeis e suaves; o Qi facilmente sai do seu caminho. Crianças adoecem facilmente e sua doença rapidamente torna-se séria, por outro lado, seus órgãos e vísceras são claros e vivos, rapidamente recuperam a saúde. É preciso tratar da mãe para tratar da criança. Esses são preceitos básicos da MTC para aplicação na pediatria. Não há contra-indicação para o uso de agulhas em crianças, porém culturalmente nossas crianças e principalmente, as famílias, apresentam restrições ao agulhamento. A técnica que mais utilizo nas crianças é a fitoacupuntura, onde colocamos sementes com propriedades fitoterápicas no acuponto, para realização de um duplo estímulo, tanto o da acupuntura, quanto o da fitoterapia. Na próxima semana exploraremos mais o assunto a vou mostrar algumas experiências positivas que venho observando com esta técnica.
Boa semana. Um abraço.

Dra Alessandra

quarta-feira, 16 de março de 2011

CUIDANDO DE QUEM CUIDA

Hoje, diferente do que geralmente faço, vamos falar da atenção as mães, pais, avós, irmãos e outras pessoas que se dedicam ao cuidado das crianças com alguma deficiência.

Achei interessante falar neste assunto, pois semana passada atendi uma criança que conheço desde o nascimento (ela está com 9 anos) e mal reconheci a mãe. Uma moça jovem, que tem menos de 30 anos, mas com aparência de pelo menos 10 anos a mais, emagrecida e com um aspecto realmente cansado.

Perguntei como ela estava e ela me respondeu o que estava na cara: Nossa Doutora! Estou muito cansada. Minha vida é correr de lá para cá em médicos e terapias, laudos, escolas, remédios... Enfim uma vida de compromissos!

Curiosa, fiz uma pergunta: e o que você faz para você? Tipo ir ao cinema, passear sozinha, ir ao salão de beleza, essas coisas. Ela deu risada e respondeu: Ah, desde que minha filha nasceu, não faço mais nada!

Aquela resposta me tocou profundamente por dois pontos: Primeiro, sei (e sei bem) que uma criança com necessidades especiais, ainda mais no caso dela que a filha é dependente para tudo, realmente dá muito trabalho e consome um tempo enorme. Entretanto não podemos esquecer que há um ser humano por trás da figura do responsável que tem necessidades também, que precisa de uma vida além da criança, até para poder dar seu melhor à criança.

E segundo, as situações neurológicas da infância são geralmente crônicas, ou seja, vão acompanhar a criança boa parte, ou a vida toda. Então é necessário que a família se organize para viver com essa realidade e não viver somente essa realidade.

Outro ponto que acho importante é que a gente aprenda a pedir ajuda. Ao pai da criança (que tem as mesmas responsabilidades da mãe), avós, tios, vizinhos. Quanto maior a rede que for construída em torno dessa criança, menos ela vai ser um peso na vida daquele responsável sobrecarregado. Se essa for uma rede de amor, aí então, ela só tem a ganhar.

Pedir ajuda a alguém é, além de um exercício de humildade, um exercício de tolerância, já que o outro pode não cuidar da mesma forma que nós cuidamos (Cuidado mamães!! Pois nós mães achamos que só NÓS cuidamos direito dos nossos filhotes), mas qualquer cuidado que venha com amor e boa vontade vai, com certeza, dar certo e fazer bem.

E uma vez resolvido isso, vá sem culpa, ao parque, ao cinema, à igreja, namorar seu marido, seu namorado, arrumar um namorado, enfim viver a sua vida, pois esse é um direito de todos nós.

Sejamos felizes!
Um abraço
Dra Alessandra

quarta-feira, 2 de março de 2011

Intervenção Precoce é um trabalho sensacional!!

Olá!! Quanto tempo!! Parece que o ano já começou agitado! Mas vamos colocando as coisas em dia com calma.

Esta semana, quero comentar a experiência do nosso grupo de intervenção precoce, que carinhosamente apelidamos de grupo de “bebês”.

Ele é composto por bebês que nasceram no Hospital de Cotia e que apresentaram alguma intercorrência durante o parto ou logo após, como prematuridade, falta de oxigênio ao nascer (Anóxia Neonatal), convulsão ao nascimento ou meningite neste período e que vem para um seguimento de rotina com a equipe do centro de reabilitação.

Eles passam em avaliações mensais ou bimestrais de acordo com a necessidade e orientamos desde exercícios de estimulação motora e alimentar, até a compra de brinquedos, músicas e passeios externos. Quando observamos alguma alteração no desenvolvimento, a criança é precocemente encaminhada à reabilitação.

A equipe conta comigo como médica, com uma fisioterapeuta, uma terapeuta ocupacional, uma fonoaudióloga e ao final das consultas (em torno do primeiro ano de vida), realizamos uma avaliação e orientação inicial da odontologia.

O grupo é pareado por idade cronológica (ou seja, de nascimento), e vemos no máximo cinco crianças por atendimento.

Hoje foi um dia inusitado, pois vimos duas situações distintas em que o grupo mostra sua validade e importância. Duas meninas que nasceram com 15 dias de diferença e ambas com peso abaixo de 1kg.

A maiorzinha, que está com 10 meses, é umas das nossas menores crianças, foi uma prematura extrema e nasceu com cerca de 600g. Está com 10 meses (7 meses de idade corrigida) e muito, muito fofa, com exame normal para a idade corrigida, esperta, sorridente. Uma família ótima e uma mãe que seguiu todas as orientações de estimulação.

A outra, com 9 meses, vem apresentando uma evolução ruim, com atraso importante (foi um caso mais grave, que teve sangramento na cabeça e hidrocefalia, necessitando de cirurgia), mas percebido desde sua chegada ao grupo com 4 meses. Já está em reabilitação e vem evoluindo lentamente, embora de forma consistente.

Tenho certeza que essa seria uma criança que chegaria a um centro de reabilitação por volta dos seus 2 ou 3 anos de idade, com um atraso imenso e um tempo precioso perdido.

E como criança é tudo de bom, as duas como boas “amigas de infância”, brincaram juntas, sorriram e dentro de suas possibilidades interagiram de forma plena. E na saída, a pequerrucha nos brindou com um “tchau” recém aprendido e ainda meio desengonçado, que levou à mãe às lágrimas, pois realmente são pequenas guerreiras desde sempre!!

Um abraço
Dra Alessandra

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Autismo: Tratamento

Embora não haja tratamento medicamentoso específico para o autismo, ou seja, não vamos usar um remédio que vai “curar” a situação, muito se pode colaborar com medicamentos nos quadros do espectro autista.

Devemos ter em mente que o tratamento dos transtornos globais do desenvolvimento (TGD) envolve uma abordagem múltipla:

  • Intervenções psicossociais:
    a) com a família
    b) com a criança / adolescente
    c) com a escola
  • Intervenções psicopedagógicas, psicoterapêuticas, reabilitação interdisciplinar
  • Intervenções farmacológicas

Os exames complementares só serão necessários para investigar uma possível situação de base que cause os sintomas.

Neste contexto, os medicamentos serão úteis no controle de alguns sintomas do TGD e de algumas comorbidades (outras doenças que aparecem junto com o transtorno, como a epilepsia).

Os principais sintomas que podem requerer uma abordagem farmacológica são as estereotipias, a agressividade, a irritabilidade e a agitação psicomotora. A decisão de medicar ou não esses sintomas dependerá do impacto destes na vida da criança ou do adolescente.

Medicamentos como os anti-depressivos, os anti-psicóticos e até mesmo os anti-epilépticos são os mais utilizados.

A epilepsia quando presente deve ser tratada da mesma forma que quando aparece sem o TGD, porém, às vezes podemos escolher a medicação já visando melhorar outros sintomas ou realizar associações que ajudem em vários aspectos do quadro, para introduzir o mínimo possível de medicamentos.

A evolução do paciente autista é variável e depende primordialmente do investimento familiar, escolar e da equipe de saúde, porém sem uma família continente, que entenda as orientações e as coloca em prática, que respeita os limites da criança ou adolescente, não há boa evolução.

A maior parte dos autistas tem boas condições de se desenvolver, de aprender coisas novas e se tornar um adulto independente e produtivo. Basta acreditar!!

Um abraço

Dra Alessandra

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Um passeio muito especial

Quero compartilhar mais uma bela história com vocês!!

Essa semana a mãe de uma paciente minha, chamaremos de J. telefonou para contar uma ótima novidade!!

Eu adoro quando as pessoas me telefonam para contar coisas boas, pois geralmente quando meu telefone toca é porque as coisas não vão muito bem...

J. tem diagnóstico de Doença de Tay-Sachs, que é uma doença rara, genética (autossômica recessiva) resultante da deficiência de uma enzima chamada hexosaminidase A.

Clinicamente, uma criança com Doença de Tay-Sachs desenvolve-se normalmente até nos primeiros meses de vida, quando lentamente ocorre perda da visão periférica e regressão gradual das funções neurológicas. Pacientes com Tay-Sachs infantil vêm a óbito geralmente antes dos cinco anos de idade e não há tratamento disponível até o momento.

Pois bem, minha princesa é uma guerreira, pois já está com 7 anos e contrariando as expectativas, segue bem viva!! Tem uma série de dificuldades, vive restrita ao leito, respira com suporte de aparelhos e se alimenta por sonda.

A mãe de J., que também é um ser humano pra lá de especial, tem como objetivo curtir a filha o máximo possível, dando-lhe qualidade de vida, amor e carinho incondicionais.

Esse fim de ano, elas viajaram para o litoral. Munidas de um aparato hospitalar, home-care e toda segurança possível, lá foi a família curtir a praia.

J. foi colocada na piscina com o pai, no mar para sentir as ondas batendo nas suas perninhas, tomou sol, enfim, curtiu á vida e a mãe me ligou para contar de um evento específico.

Uma tarde, elas estavam passeando, J. em sua cadeira de rodas, meio longe de casa, quando começou a chover e a mãe juntamente com a enfermeira correram em busca de um abrigo. Subiram a ladeira até em casa, esbaforidas, tentado com um guarda-chuvas protegê-la um pouco mais, e quando finalmente chegaram à garagem de casa, J. estava SORRINDO!!! Sorrindo muito, como há alguns anos ela não fazia.

A mãe fez questão de dizer que a primeira pessoa que ela se lembrou foi de mim (chego a ficar arrepiada) porque eu sempre insisto que J. pode perceber mais do que aquilo que nós percebemos. Que todo estímulo é bem-vindo pois não sabemos o que ela entende, mas alguma coisa ela sempre entende, mesmo em condições mais graves.

A palavra deve ser dita com cuidado perto dela, o carinho deve ser expresso de várias formas, porque alguma coisa ela vai entender.

E é nisso que eu acredito, que toda estimulação é boa e gera frutos visíveis ou não. Não é porque não enxergamos algo que ele não existe.

Ganhei meu dia, até porque quando ela surgiu com essa idéia, todo mundo disse que era loucura, mas um pouco de loucura faz muito bem à vida!!!

Uma semana de boas loucuras!!
Um abraço
Dra Alessandra

Ansiedade na infância: por que nossas crianças sofrem com o amanhã?

Eu acho que a infância é, sem dúvidas, a melhor fase da vida. Onde tudo é lúdico e onde a vida ainda é mais diversão do que obrigação....