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Dia Mundial de Conscientização do Autismo

Texto da neuropsicóloga Melanie Mendoza com Mitos e Verdades sobre os Transtornos do Espectro do Autismo no site da vivere - www.vivereclinica.com

Hoje é o dia mundial do autismo, para marcar a data fiz uma lista de Mitos e Verdades sobre o tema.

a) Cada criança tem seu tempo.

Parcialmente verdadeiro. Cada criança é única e as habilidades e talentos variam muito  de indivíduo para indivíduo (inclusive dentro de um grupo de adultos, não é mesmo?). Entretanto, existe um intervalo de idade esperado de desenvolvimento para todos áreas: motor (sentar, andar, saltar, etc.), comunicação (balbuciar, pedir colo, apontar, dizer palavras, etc.) e socialização (sorriso social, atenção compartilhada, brincar em parceria e faz de conta). Se uma criança não anda dentro do intervalo esperado ela é avaliada por um neurologista, fisiatra ou ortopedista e encaminhada um fisioterapeuta onde será estimulada e, ainda que a marcha não seja possível (por exemplo em alguns tipos de paralisia cerebral) ela receberá cuidados para evitar problemas como luxação de quadril e osteoporose. Da mesma forma se ela demora a falar, a se comunicar e a sua socialização não ocorre dentro do que seria esperado para a faixa etária ela precisa que um especialista a avalie e faça os melhores encaminhamentos.

b) Na avaliação será dito que ele tem autismo e isso virará um rótulo na vida dele. 

Falso. Não existe um exame laboratorial para diagnóstico de autismo. Na avaliação precoce são observados conjuntos de comportamentos apresentados pela criança que indicam a necessidade de intervenção ou não. Até em torno de trinta meses pela Autism Diagnostic Observation Schedule (ADOS), por exemplo, os resultados são dados em termos de nível de atenção (concern em inglês) após esta idade é levantada uma hipótese diagnóstica (HD) que é, como o nome diz, uma hipótese que pode se concretizar ou não. A HD nos indica, através de todo o corpo de evidências coletados em pesquisas no mundo todo, quais as intervenções que tem maior probabilidade de funcionar e trazer benefícios práticos para a criança.

c) Não se dá diagnóstico antes de três anos.

Parcialmente verdadeiro. Porque crianças até em torno de três anos mudam muito via de regra se aguarda este tempo para levantar uma HD de transtorno do espectro do autismo (TEA), mas em alguns casos os sinais já estão presentes de maneira muito precoce (isolamento intenso, auto-estimulação frequente, falta de contato visual, ações muito repetitivas) e por isso o clínico pode optar por já aventar uma HD  de TEA. Importante: aguardar para dar uma HD não quer dizer adiar a intervenção que deve se iniciar assim que são detectados atrasos.

d) a criança pode virar um robô com as terapias.

Falso. Um pesquisador bem famoso chamado Baron-Cohen diz que para pessoas com TEA “o comportamento das outras pessoas é confuso e imprevisível, e até mesmo, assustador”. Imagine-se em um mundo em que você não entende as ações das outras pessoas - não entendesse porque elas brigam com você, ou se afastam, ou não lhe dão comida quando você está com fome, ou te coloquem em uma sala barulhenta. Depois imagine que você tem a chance de ter um amigo adulto que você vê com frequência que tem ensina um “truque” para sua mãe lhe dar comida quando você está com fome, que o barulho passa rápido e que depois vem parquinho, que falar “quer brincar comigo com o meu caminhão?” tem maiores chances de funcionar do que puxar o amiguinho pelo braço e deixá-lo sentado. Este amigo é o terapeuta.
Nos indivíduos com TEA o aprendizado, que para os outros indivíduos é intuitivo, deve ser ensinado de maneira mais organizada e estruturada (da mesma forma que aprendemos coisas que não costumam ser intuitivas como dirigir, fazer contas de divisão de dois algarismos ou a utilizar a nossa primeira impressora multifuncional) e porque é um aprendizado não intuitivo a fala pode parecer um pouco “robotizada” e a brincadeira meio “durinha”, mas como nos comportaríamos se tivéssemos tido aula de boas maneiras para estrangeiros em um país que nos fosse exótico? Indivíduos com TEA precisam com alguém como agir no meio desta confusão que chamamos de relação com as outras pessoas ou de outra forma precisarão organizar seu próprio sistema baseado em tentativa e erro.

e) A terapia comportamental é um adestramento.

Falso. A terapia comportamental analisa o porquê de um comportamento ocorrer. Ao invés de punir a criança com algo que ela fez de errado porque queria alguma coisa, os terapeutas ensinam uma forma de conseguir o que ela precisa sem burlar regras de nosso sistema interpessoal. É uma forma de terapia humanizada que prega a individualidade de cada criança e seu nível de desenvolvimento. Os terapeutas precisam ser profundamente sensíveis em empáticos para entender o que a criança deseja e ao mesmo tempo ter altas doses de auto-controle para não ceder nos momentos inapropriados. A afirmação de que é um adestramento é feito por pessoas que - na melhor das hipóteses- desconhecem os pressupostos teóricos e ou – na pior das hipóteses – possuem conflito de interesse de econômico.

f) São necessárias muitas horas de terapia.

Parcialmente verdadeiro. Para crianças pequenas cujo cérebro está no momento  mais acelerado de desenvolvimento de novas sinapses, um grande número de horas em terapias multidisciplinares – ABA, fono e TO - costuma ser indicado. No entanto, este não é uma panaceia e nem o único caminho. Existem pequenos clientinhos em que, após a avaliação, o plano de tratamento indicado pode ser a entrada ou mudança de escola, mais horas de brincadeira e interação com um adulto ou diminuir o tempo no aparelhos eletrônicos.

g ) A criança pode sair do espectro.

Verdadeiro. O diagnóstico de autismo é baseado em uma série de sinais e sintomas, uma vez que através de estimulação estes sinais e sintomas desaparecem em algumas pessoinhas, não é mais possível diagnosticar o quadro. Não existe uma “cura” mas um abrandamento tão grande dos prejuízos que eles não são mais detectáveis através de escalas ou avaliação clínica.
Eu desejo a todos um ótimo 2 de abril !!!

Um forte abraço,
Melanie

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