Pular para o conteúdo principal

"Ele é tudo de ruim"

Atendi um menino semana passada, com 10 anos e um quadro comportamental importante. J. se recusa a ir à escola. E como já é um rapazinho, simplesmente não vai. Se joga no chão, grita, bate, enfim, não vai há 2 meses na aula.

Ele passou em triagem comigo e com a psicologia, e ainda que numa observação mais superficial, nós não fechamos qualquer diagnóstico neurológico ou psicológico.

A situação familiar é extremamente conturbada e a mãe não oferece o suporte necessário. Ele já passou em vários tratamentos, mas nenhum é levado com seriedade.

Durate a avaliação, pergunto como ele é em casa e lá vem uma chuva de queixas e acusações: J. é agressivo, desobediente, bate na mãe, é insuportável, etc, etc, etc. Eu já meio sem jeito fiquei observando J. sentadinho na cadeira ouvindo a mãe dizer tudo isso dele, mas a psicólogca foi além e perguntou o que ele fazia de bom e a mãe tranquilamente respondeu: - Nada, esse menino é tudo de ruim!!!

Como assim?? Eu quase cai da cadeira! Como uma mãe fala na frente do filho que ele é tudo de ruim? Ela estava nos dizendo que recebeu uma criança pura e fresca, e em 10 anos de convivência, não conseguiu despertar nada de bom nele. Essa é a nossa responsabilidade como pais.

É claro que naquele momento não pontuamos nada com a mãe, pois ela não tinha condições de nos ouvir, mas fui para casa refletindo como às vezes, a criança é tratada como o problema e na verdade é a grande vítima da situação.

Uma palavra tem poder. Se você fala para o seu filho que ele é tudo de ruim, com certeza ele vai ser, pois essa é a expectativa que você joga nele. E se perto do profissional foi assim, fico imaginando em casa como deve ser.

E assim, uma criança normal, é rotulada de problemática, recebe uma pilha de encaminhamentos – ao neuro, ao psiquiatra, ao psicólogo – enfim, uma iatrogenia.

O que ficou disso foi uma avaliação de ambos pela psicóloga, uma avaliação neurológica para a criança e a certeza de que aquela criança sofre.

Minha grande briga com parte das mães dos meus pacientes é exatamente essa. Criança tem que ser criada com amor, com carinho e com limite, sabendo que alguém a ama incondicionalmente e que estará lá para suportá-la. E isso, não há remédio no mundo que substitua.

Boa semana
Um abraço
Dra Alessandra

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Neurologia infantil e do adolescente

A Neuropediatria (também denominada Neurologia Pediátrica ou Neurologia Infantil) constitui uma sub-especialidade da pediatria dedicada às doenças ou disfunções do sistema nervoso e do sistema muscular que se manifestam na criança ou no adolescente.
O Neuropediatra tem como função essencial o diagnóstico, prognóstico, orientação terapêutica e aconselhamento dos problemas neurológicos que afetam a criança ou o adolescente, mas a sua atividade clínica exige frequentemente um contato estreito com outros especialistas não só da pediatria ou da neurologia mas ainda da genética, bioquímica, neuroradiologia, neurofisiologia, neuropatologia, neurocirurgia, psiquiatria infantil e reabilitação.

Area de atuação
Acompanhamento (neuro-puericultura) de bebês de risco (prematuros ou asfíxicos)
Alterações no Desenvolvimento Neuro-psico-motor (DNPM)
Epilepsia (convulsão)
Cefaléia (dor de cabeça)
Disfunções musculares
Transtornos no aprendizado (dislexias, discalculia)
Transtornos do neurodesenvolvi…

Diagnóstico e prognóstico

Sim,quanto nome difícil!!! Palavras que despejamos no dia a dia para nossos pacientes e seus familiares na expectativa de ajudá-los a lidar com o inesperado. Porque nenhum pai, mãe ou avós acha que seu filho ou neto terá uma doença. E se ela é neurológica então... pior ainda.

Diagnóstico é o nome da doença ou situação clínica que o indíviduo tem. Paralisia cerebral, autismo, síndrome de Down, epilepsia, enxaqueca são alguns exemplos de diagnóstico. Porém em alguns casos, como a epilepsia por exemplo, esse diagnóstico pode ter uma causa, uma etiologia, como a própria paralisia cerebral.

Em alguns pacientes essa busca não é fácil e nos desgastamos junto à família para dar um nome à situação, pois como nos fala poeticamente a Adriana Ueda do blog Síndrome de Angelman (vide meus blogs prediletos): “E mesmo que a medicação não mude, ou que as terapias e tratamento continuem sendo os mesmos, a impressão que temos ao ter um nome para o problema é que uma página foi virada e podemos começar um …

Acupuntura e epilepsia

Hoje trago o resumo do meu trabalho de conclusão de curso de acupuntura, utilizando esta técnica milenar em pacientes com epilepsia.

Na definição da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a saúde é um estado de harmonia entre as funções orgânicas internas e entre o ser humano e o meio ambiente onde vive. Na natureza, os fenômenos podem ser divididos, de uma forma simplista, em dualidades opostas, denominadas de yin-yang, que apresentam um estado de equilíbrio dinâmico.

No corpo humano o fluxo ininterrupto e suave das substâncias essenciais mantém as funções adequadas dos órgãos internos e, conseqüêntemente, asseguram as atividades nervosas e mentais, manifestando externamente um estado de saúde e bem estar.

A epilepsia do ponto de vista ocidental é uma condição que tem em comum a presença de crises epilépticas ou convulsivas recorrentes na ausëncia de condição tóxico-metabólica ou febril. A crise epiléptica é causada por descargas elétricas cerebrais anormais excessivas e transitórias da cé…